A promessa original da internet era a de uma ágora global: espaço de conexão, democratização do conhecimento e ampliação da liberdade individual. O que se consolidou, contudo, foi algo mais ambíguo. As plataformas de redes sociais capturam uma necessidade humana profunda — o pertencimento — e a organizam sob lógicas de desempenho, comparação e adequação contínua.

Para compreender essa passagem de uma praça pública potencial para um ambiente ao mesmo tempo sedutor e exaustivo, é útil cruzar dois diagnósticos: o de Émile Durkheim, sobre a coerção social, e o de Zygmunt Bauman, sobre a fragilidade dos vínculos na modernidade contemporânea. Juntos, eles ajudam a explicar por que tanta gente marcha em uníssono nas redes, muitas vezes sem convicção profunda.

1. A coerção que não precisa de prisão

Durkheim definiu o fato social como maneiras de agir, pensar e sentir que são exteriores ao indivíduo, se impõem de forma geral e exercem coerção sobre quem tenta se desviar. Na sociedade industrial, essa coerção vinha sobretudo das leis, da religião, da moral familiar e das instituições.

Nas redes, o fato social se digitalizou. Trends, estéticas padronizadas, pautas cíclicas de indignação e códigos de linguagem aceitáveis funcionam de modo semelhante: nascem fora do indivíduo (nos algoritmos e nas dinâmicas de engajamento), atingem milhões ao mesmo tempo e exercem pressão real. A sanção, porém, mudou de forma. Em vez de prisão ou excomunhão, prevalecem a perda de alcance, a invisibilidade, o constrangimento público e o medo da exclusão simbólica.

Isso não significa que todo usuário seja um fantoche sem agência. Significa que o ambiente foi desenhado para tornar custoso o desvio e recompensadora a adequação. A “marcha” das redes pode ser lida, em chave durkheimiana, como obediência a um conjunto de expectativas coletivas que se renovam a cada ciclo de atenção.

2. Pertencimento líquido, vínculos frágeis

Se Durkheim ajuda a entender a pressão para se conformar, Bauman ajuda a entender por que essa conformação raramente produz pertencimento duradouro.

Na modernidade líquida, as instituições que antes ofereciam contorno mais estável à identidade — carreira de longo prazo, comunidade local, laços de maior permanência — perderam solidez. Diante desse afrouxamento, as redes aparecem como refúgio. O problema é que elas tendem a oferecer menos comunidades do que conexões.

Comunidade, no sentido forte, envolve compromisso, tolerância ao conflito e alguma continuidade. Conexão digital, por sua vez, pode ser desfeita com um unfollow, um bloqueio ou simplesmente pelo esfriamento do algoritmo. O resultado é um pertencimento de baixa densidade: amplo, visível, performático e facilmente reversível. Muita gente sincroniza estética, linguagem e posicionamento menos por adesão profunda do que pelo medo de ficar de fora.

3. A face utópica e a engrenagem exaustiva

O ambiente que emerge dessa combinação pode ser chamado de utopicamente distópico.

Na superfície, a interface é promissora: liberdade de expressão, autoapresentação, alcance potencial, recompensas intermitentes de atenção e reconhecimento. Cada usuário é convidado a se apresentar como protagonista de si mesmo.

Por baixo dessa superfície, opera uma lógica mais próxima da sedução do que da repressão aberta. Não se trata tanto do controle totalitário pela força, como em 1984, e sim de uma forma de adesão voluntária pelo desejo de validação, visibilidade e pertencimento — uma dinâmica que autores como Aldous Huxley e, mais tarde, Neil Postman já haviam entrevisto em chave mediática. A busca por ser visto e aprovado torna-se, ela mesma, uma fonte de ansiedade, comparação e cansaço. A hiperconexão convive, paradoxalmente, com solidão e exaustão.

4. Alienação consentida e margem de autonomia

O ponto mais delicado desse diagnóstico é que a pressão não aparece como imposição externa brutal. Ela se alimenta do próprio desejo de reconhecimento e inclusão. Por isso a alienação, quando ocorre, tende a ser consentida e até prazerosamente experimentada.

Isso não autoriza, porém, um tom de condenação totalizante. As redes também podem ser instrumento de informação, organização, afeto e mobilização. O problema não é a existência das plataformas em si; é a forma como sua arquitetura de atenção e de validação social reforça adequação rápida, vínculo frágil e performance contínua.

Mitigar essa dinâmica não exige heroísmo nem desconexão total. Exige, antes, algumas capacidades práticas e éticas:

Em outras palavras: não se trata de negar o fato social digital, e sim de recuperar margem de escolha diante dele.

Síntese

Durkheim ajuda a ver a coerção. Bauman ajuda a ver a fragilidade dos laços. Cruzados, os dois diagnósticos mostram por que as redes podem funcionar como ambiente de forte pressão coletiva e, ao mesmo tempo, de baixo pertencimento real.

O risco não é apenas “ser controlado” por um algoritmo. É entrar voluntariamente em uma coreografia de adequação permanente, confiante de que ali encontrará identidade e comunidade, e descobrir que encontrou sobretudo desempenho e conexão descartável.

A saída, se existe, não está em uma recusa absoluta da técnica, mas na reconstrução de autonomia relativa: capacidade de silêncio, de vínculo mais denso e de distância crítica diante da exigência contínua de aparecer, reagir e pertencer.