O Direito tradicional ensina o jurista a pensar em prosa. A lei é um texto, a petição é um texto, a sentença é um texto. A Jurimetria exige que o jurista aprenda a pensar também em probabilidade e em estrutura de dados.
Transformar uma questão jurídica abstrata em uma predição numérica não é exercício de adivinhação. É um processo rigoroso de tradução: pegar a complexidade humana de um conflito e quebrá-la em blocos lógicos que um modelo estatístico ou de machine learning consiga processar. O objetivo final não é substituir o advogado, mas retirar a cegueira da decisão estratégica.
A seguir, a engenharia em três passos fundamentais, seguida de dois casos reais e distintos para fixar o método.
Passo 1: Definir a Variável Alvo (O que exatamente queremos prever?)
O erro mais comum é jogar milhares de sentenças em um algoritmo e esperar que ele “descubra” alguma verdade mágica. Algoritmos não fazem perguntas. Eles respondem às perguntas que formulamos. A inteligência está na formulação humana da hipótese.
A Variável Alvo (também chamada de target ou Y) precisa ser clara, mensurável e, preferencialmente, binária ou categórica simples.
- Exemplo ruim: “O que o juiz pensa sobre direito à saúde?” (subjetivo demais, impossível de quantificar com rigor).
- Exemplo jurimétrico: “Qual a probabilidade de o pedido ser julgado procedente?” (1 = procedente / parcial; 0 = improcedente).
Outras formulações úteis:
- Probabilidade de concessão de liminar.
- Probabilidade de reforma em segunda instância.
- Probabilidade de acordo antes da sentença.
Sem uma variável alvo bem definida, todo o restante do trabalho se torna ruído.
Passo 2: Extrair as Variáveis Preditoras (As “features”)
O computador não entende o drama humano nem a elegância retórica. Ele entende colunas de dados. O trabalho central do jurimetrista é ler os processos (ou os metadados disponíveis) e transformar o texto em variáveis mensuráveis — as Variáveis Preditoras (os inputs ou X).
As variáveis mais úteis costumam ser:
- Categóricas: Existe laudo técnico? O contrato está escrito? Há prova de hipossuficiência? O pedido é de obrigação de fazer ou de pagar?
- Numéricas: Valor da causa, tempo de tramitação até a decisão, idade do autor, número de documentos juntados.
- Contextuais: Vara ou juiz responsável, comarca, ano ou período (antes/depois de determinado precedente), existência de amicus curiae, tipo de réu (pessoa física, empresa, poder público).
A qualidade da predição depende diretamente da qualidade e da relevância dessas variáveis. Variáveis ruins produzem modelos ruins, independentemente da sofisticação do algoritmo.
Passo 3: O Motor Matemático e a Interpretação
Com a tabela montada (centenas ou milhares de casos antigos transformados em linhas e colunas), os dados são injetados em um modelo preditivo. Uma das formas mais visuais e compreensíveis para o Direito é a Árvore de Decisão. O algoritmo examina os casos passados e vai criando ramificações: “Se a variável A está presente e a variável B não está, a probabilidade de procedência sobe para X%”.
Outros modelos (regressão logística, random forest, gradient boosting etc.) podem ser usados. O importante é que o resultado final seja interpretável o suficiente para apoiar uma decisão humana responsável.
O modelo não substitui o advogado. Ele entrega uma estimativa de probabilidade condicionada aos dados históricos disponíveis. Cabe ao profissional avaliar se aquela probabilidade, somada ao valor em jogo e aos custos processuais, justifica determinada estratégia.
Case 1: Contencioso de Saúde Pública (Medicamentos de Alto Custo)
Problema abstrato
Um paciente ajuíza ação contra o Estado pedindo medicamento de alto custo. O procurador precisa decidir: vale a pena recorrer até as instâncias superiores ou a condenação é altamente provável e o recurso só gerará mais multas e custos?
Tradução numérica
O modelo é treinado com milhares de processos semelhantes daquela região. As variáveis incluem: registro na Anvisa (sim/não), existência de laudo médico detalhado, falha prévia dos medicamentos do SUS, idade do autor, valor do medicamento, entre outras.
Resultado típico de uma árvore de decisão
- Se o medicamento não tem registro na Anvisa → probabilidade de êxito do Estado sobe significativamente.
- Se tem registro, mas não está no protocolo do SUS, e existe laudo robusto de falha dos tratamentos disponíveis + autor menor de idade → probabilidade de condenação do Estado torna-se muito elevada.
Uso executivo
Quando o caso cai na ramificação de alta probabilidade de condenação, a orientação deixa de ser “litigar até o fim” e passa a ser “regularizar o fornecimento e negociar”. A abstração jurídica vira governança financeira e redução de passivo.
Case 2: Contencioso Trabalhista — Horas Extras e Cargo de Confiança
Problema abstrato
Uma empresa de médio porte enfrenta dezenas de reclamações trabalhistas pedindo o pagamento de horas extras. Em muitos casos o empregado ocupava função com o nome de “coordenador” ou “supervisor”. A empresa alega que se tratava de cargo de confiança (art. 62, II, da CLT) e que, portanto, não haveria direito a horas extras. O departamento jurídico precisa saber, com base em dados, em quais situações a tese de cargo de confiança costuma prevalecer e em quais ela costuma sucumbir.
Tradução numérica
Em vez de se apoiar apenas na “experiência” dos advogados, o escritório ou o departamento jurídico estrutura uma base com processos já julgados daquela região e daquele setor econômico. As variáveis preditoras incluem:
- O empregado tinha subordinados formais? (sim/não e quantidade)
- Possuía alçada para admitir ou demitir?
- Recebia gratificação de função igual ou superior a 40% do cargo efetivo?
- Controlava o próprio horário ou batia ponto?
- Valor médio da remuneração
- Tempo de casa
- Vara e juiz
- Existência de prova documental (e-mails, organogramas, testemunhas)
A variável alvo é binária: “Pedido de horas extras julgado procedente” (1) ou “improcedente / acolhida a tese de cargo de confiança” (0).
Resultado típico do modelo
A árvore de decisão (ou modelo equivalente) revela padrões claros:
- Quando o empregado não tinha subordinados, batia ponto e a gratificação de função era inferior a 40% → probabilidade de condenação ao pagamento de horas extras supera 80-85% naquela base histórica.
- Quando havia subordinados formais, alçada real de gestão e gratificação adequada → a probabilidade de êxito da tese de cargo de confiança sobe de forma relevante.
Uso executivo
Com esses números em mãos, a empresa deixa de tratar todos os processos da mesma forma. Nos casos de alta probabilidade de condenação, prioriza acordo precoce (reduzindo risco de execução elevada e de precedentes negativos). Nos casos em que as variáveis favoráveis estão presentes, investe em instrução robusta e defesa de mérito. O mesmo modelo ajuda a revisar a política interna de cargos e gratificações para o futuro, prevenindo novas ações.
Cuidados Essenciais para Não Ser Enganado pelos Dados
Mesmo com o método bem aplicado, alguns riscos precisam ser controlados:
- Viés de sobrevivência: a base de sentenças e acórdãos representa apenas os casos que chegaram até ali. Processos que terminaram em acordo precoce ou extinção podem estar sub-representados.
- Mudança de jurisprudência: um modelo treinado com dados antigos pode perder precisão após um novo precedente vinculante.
- Qualidade da base: dados incompletos ou mal classificados geram predições ilusórias.
- Interpretação responsável: probabilidade alta não é certeza. O modelo informa; a decisão estratégica continua sendo humana.
Síntese Prática
Transformar uma questão jurídica em predição numérica exige disciplina em três movimentos:
- Definir com clareza o que se quer prever (variável alvo).
- Extrair do processo as variáveis que realmente influenciam o resultado (features).
- Treinar e interpretar um modelo que traduza o histórico em probabilidades condicionadas.
Quando bem executada, a Jurimetria não elimina o Direito. Ela o torna mensurável. Substitui a esperança argumentativa por uma arquitetura de decisão baseada em evidência histórica — e permite que o advogado ou o gestor jurídico atue com os olhos abertos diante do risco real.